Viver na prática do dia-a-dia o desapego é quase tão desafiante quanto escrever sobre o assunto.

Falar de desapego é atualmente algo relativamente comum. Contudo, ainda há pouco tempo, era visto como algo que só alguém muito caprichoso teria necessidade de fazer. Hoje, numa perspetiva de desenvolvimento pessoal, o desapego nada tem a ver com capricho, egoísmo ou até mesmo egocentrismo.

O desapego é uma forma de crescimento pessoal, só possível de praticar por quem tem dentro de si um desejo ardente de se amar mais, a cada dia. E, como sabemos amor-próprio, em nada, está relacionado com egoísmo.

Quanto mais frequente se torna um conceito, maior é a necessidade de se clarificar o que esse conceito não é em detrimento do que é. O mesmo acontece com o desapego. Agora, que tanto se fala de desapego, sinto uma enorme necessidade de explorar também o que não é o desapego.

Então, desapego não é:

  1. Colocar completamente o medo, a ansiedade e as dúvidas de parte para se largar tudo de um momento para outro;
  2. Deixar de cuidar das pessoas que nos são queridas, não lhes dedicando tempo de qualidade;
  3. Investir num novo relacionamento na esperança que os sentimentos pelo antigo companheiro desapareçam por si só;
  4. Deixar o emprego que não nos satisfaz de um dia para outro, sem que exista um plano de reestruturação profissional previamente elaborado;
  5. Cortar completamente relações com aquela colega de trabalho que nos dificulta a vida todos os dias, mesmo sabendo que o sucesso profissional depende da nossa colaboração;
  6. Abdicar de bens materiais e passar a viver como se de um voto de pobreza se tratasse;
  7. Passar a acreditar milagrosamente que somos merecedores de um mundo cor-de-rosa, cheio de facilidades e muita felicidade, sem que sintamos isso verdadeiramente dentro de nós;
  8. Ignorar que o que aconteceu no passado, ao mesmo tempo que não se tem qualquer preocupação com o futuro;
  9. Meditar todos os dias 30 minutos e viver em stress as restantes 23H e 30 minutos;
  10. Ir todas as semanas à aula de Yoga/Pilates e continuar a ignorar os sinais que o corpo nos transmite a cada instante;
  11. Etc.

Acabo de constatar que, a variedade de coisas que se podem considerar desapego, sem o serem, é quase tão extensa quanto aquilo que o desapego realmente é!

Mas bem, vou agora clarificar o que realmente se entende por desapego na área do  desenvolvimento pessoal. Para isso vou seguir a mesma ordem de ideias da lista a cima.

 

 

 

 

 

 

 

Desapego é:

1. Reconhecer que o medo, a ansiedade e as dúvidas são sentimentos tão válidos quanto quaisquer outros. Não há problema em senti-los uma vez que eles fazem parte do ser humano e têm até algumas vantagem em situação de risco e/ou perigo. Senti-los é sinal que estás viva e viver é maravilho. O grande problema destes sentimentos é ficar-se preso a eles como desculpa para não se avançar, não se arriscar algo novo, não se mudar uma situação, etc.

Por isso, nesta perspetiva, desapego é sinonimo de liberdade emocional. Normalmente queremos mudar de vida e largar tudo o que temos no agora para nos sentirmos mais livres e plenos, certo? Então, torna-se obvio que isso não será possível enquanto internamente e por vezes, de forma até inconsciente, continuarmos a viver no medo.

Contudo, fazer uma mudança abrupta de vida também não será viável. Para além de nada indicar que essa mudança traz o equilíbrio emocional que procuramos, há que ter em conta que toda a mudança acarreta por si só uma panóplia de emoções. Ora, se não estamos a conseguir integrar as emoções que já sentimos, como vamos conseguir lidar eficazmente com todas as emoções que vão resultar dessa mudança repentina?

Para além disso, se o fizermos vamos estar outra vez a vibrar em apego ao medo. Desta vez, não ao medo do novo, do desconhecido, do que pode acontecer, de não termos apoio, de não sermos suficientemente bons, de não conseguirmos estar à altura das expectativas dos outros ou até das nossas próprias expectativas, entre tantos outros medos, mas sim, ao medo de não se ter a oportunidade de mudar caso tudo não acontecer no imediato. O medo da falta e escassez de oportunidades de mudança também é um apego emocional.

***

Texto continua no próximo artigo, que será publicado dia 30 de Outubro de 2018.

Obrigada por me leres,

Até breve <3

Categorias: Desapego

3 comentários

Andrea Corvaceira · 26 Outubro, 2018 às 17:35

Uma leitura interessante

    Liliana Patrício · 29 Outubro, 2018 às 17:33

    Obrigada Andrea.

    Amanhã é publicada a segunda parte. Espero que possa igualmente de interesse.

    Até breve,
    Liliana Patrício

A desafiante tarefa de praticar o DESAPEGO [parte II] - Retiros das Estações · 29 Outubro, 2018 às 20:05

[…] Este artigo é uma continuação. Se não tiveste a oportunidade de ler o anterior podes fazê-lo agora, aqui. […]

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