Este artigo é uma continuação. Se não tiveste a oportunidade de ler o anterior podes fazê-lo agora, aqui.

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2. Somo seres relacionais e emocionais por natureza e não cuidar das pessoas que amamos não nos fará certamente mais felizes, pelo contrário! A questão do apego colocasse aqui quando passamos a olhar essas relações como base de suporte a toda a nossa existência. É aqui que surgem com frequência expressões como “Não sou capaz de viver sem ti”, “A minha vida sem ti não faz sentido”, “Não sei o que fazer sem ti”, etc. À primeira vista estas expressões parecem transmitir um enorme amor. Mas, a verdade é que elas representam muito mais dependência e perda de poder pessoal que propriamente amor. Ou, pelo menos não amor-próprio que ainda é a forma de amor que mais devemos de ter.

Assim, viver em desapego não passa por não dedicar tempo de qualidade às pessoas que mais amamos. Passa antes por percebermos que por mais maravilhosas e satisfatórias que sejam essas relações (com companheiros, filhos, pais, amigos, colegas de trabalho, etc.) a única relação de amor sem a qual não conseguimos viver realmente é a de amor para connosco.

Amar mais o outro (seja lá ele quem for) do que a nós próprios não traz nenhum tipo de nobreza afetiva associada. Pelo contrário, traz a dor do apego ao mínimo sinal de afastamento (emocional ou físico) do outro.

Viver em desapego, neste contexto, significa nutrir diariamente em amor todas as relações que temos com os outros, usufruir de tudo o que daí advém de melhor, mas não depender disso para se ser feliz.

3. Não são só as emoções (como falei no primeiro ponto) ou os relacionamentos (que falei no segundo ponto) que criam dependência e nos castram a liberdade de manifestarmos a nossa essência. Com frequência os pensamentos idílicos que criamos e alimentamos na nossa cabeça provocam o mesmo nível de apego.

Quando um relacionamento termina (quer seja por decisão ou por morte de um dos elementos da relação), por mais que nos custe aceitar isso, a verdade é que tal  aconteceu porque  já cumpriu o seu papel na nossa vida. Esse relacionamento já nos acrescentou tudo o que havia para acrescentar. Ele já fez por nós tudo o que havia a fazer. Cabe-nos a nós escolher dentro de nós ver as coisas desta perspetiva libertadora, ou não.

Ao não o fazermos estamos a viver em apego para com tudo aquilo que imaginamos, criamos e planeamos em detalhe na nossa cabeça sobre o futuro que esse mesmo relacionamento nos iria proporcionar. Nada disso aconteceu de facto a não ser na nossa mente. Mas, o sentimento de perda é tão grande quanto o da perda de algo real.

Quando predomina o sentimento de perda é como se houvesse um vazio dentro de nós que precisa ser preenchido e aí surgem, com regularidade, as substituições. Investir num relacionamento com alguém na esperança que os sentimentos pelo antigo companheiro desapareçam por si só ou que o vazio seja preenchido, para além de um enorme egoísmo, é também reflexo da existência de apego à dor. Pois, mais sedo ou mais tarde, esse será um relacionamento que leva à deceção, à frustração e à tristeza.

Em desapego, olhamos para o fim de um relacionamento como o fim de um grande ciclo de aprendizagem. Tal como acontece quando terminamos mais um ciclo de formação – o 12º ano, a Licenciatura, o Mestrado, o Doutoramento, a formação X ou Y – devemos festejar o fim do relacionamento por todo o crescimento que nos proporcionou e o quanto isso vai permitir desenvolver relacionamentos mais saudáveis e satisfatórios com todas as outras pessoas que já existem na nossa vida.

4. A atividade profissional que desenvolvemos tem um impacto enorme na perceção pessoal que temos sobre a nossa própria felicidade. Por isso, a mudança de emprego é algo desejado por muitas pessoas. No entanto, poucos são aqueles que a conseguem concretizar. Porquê?! Porque dar um passo que seja, num caminho desconhecido, é altamente assustador. É em situação destas que surgem as expressões “Se não der certo, como vai ser?”, “Se não correr como esperado, o que faço?”, “Se o caminho certo não for este, como vou resolver a situação?”. Todas estas questões são legítimas e não é isso que está em causa. O que de facto está em causa são as histórias repetidas que contas a ti mesma, quase sempre inconscientemente, para que tu própria te protejas do que te pode causar dor. E, neste caso, mais uma vez estamos a viver em apego ao medo.

Contudo, tal como referi anteriormente (relativamente ao primeiro ponto) mudanças rápidas trazem consigo uma panóplia de emoções diferentes, num curto espaço de tempo. Se não estamos a conseguir lidar eficazmente com o medo que uma mudança de trabalho nos traz, muito provavelmente, não é por ela acontecer de forma repentina que passamos a conseguir viver em desapego com o medo. Pelo contrário, como vimos anteriormente estamos a alimentar o apego, mas desta vez, ao medo de não nunca termos a possibilidade de mudar.

Aqui, o desapego implica um processo de autoconhecimento profundo sobre os nossos valores, forças e virtudes. Isso irá permitir-nos ter a coragem de assumir a liberdade de escolha, ao definir claramente os objetivos profissionais que queremos atingir, e nos passos necessários até à sua concretização.

5. De acordo com o que está estudado, pela Psicologia Positiva, a felicidade está relacionada em 50% com a genética, 10% com as nossas circunstâncias de vida e 40% pelo nosso comportamento deliberado. Ou seja, de facto há aspetos nas nossa vida sobre os quais não temos poder de escolha. Não só não escolhemos a nossa herança genética, como também não escolhemos (de forma consciente e deliberada) os pais que tivemos, o ambiente onde crescemos, a forma como vivemos a nossa infância, os valores, ideais e crenças que nos foram transmitidos, etc. Desta forma, estamos a falar 60% dos fatores que influenciam os nossos níveis de felicidade.

Por isso, neste momento podes estar a pensar…

Liliana, eu bem sabia que estava destinada a não ser feliz!

Se é o teu caso, lamento desiludir-te. Pois, os 40% restantes são precisamente os mais poderosos fatores de felicidade. São eles que nos permitem escolher a forma como escolhemos olhar e lidar com tudo aquilo que adquirimos por herança genética e nos foi colocado no colo como sendo a nossa história de vida.

Nesta perspetiva, viver em desapego passa por escolhermos deliberadamente olhar para tudo o que temos com uns óculos de enviesamento positivo, que nos permitem ver o melhor até mesmo no pior.

Claro que esta possibilidade de escolha permite que tenhamos o direito de decidir quem queremos manter na nossa vida, analisando se será um relacionamento harmonioso, no qual há acréscimo de valor mútuo, ou não. Contudo, quando estamos a falar de relações profissionais das quais depende o nosso sucesso profissional pessoal, há que acionar em simultâneo com o poder de escolha pessoal, a inteligência emocional. Quero com isto dizer que não passamos a viver em desapego só porque decidimos cortar completamente relações com aquela colega de trabalho que nos dificulta a vida todos os dias.

Estaremos a viver em desapego quando decidirmos internamente não alimentar nada mais a não ser o nosso bem-estar e qualidade de vida, vivendo em coerência com a nossa essência. Significa isto que alimentar o apego à raiva cortando relações com os outros não nos deixa mais livres por si só para sermos felizes. Até porque neste caso em especifico, a nossa felicidade geral também depende em parte, do nosso sucesso profissional, certo?

Então, viveremos em desapego quando decidirmos internamente não permitir mais que as atitudes dos outros interfiram na nossa felicidade, mesmo quando nos continuamos a relacionar profissionalmente com eles diariamente.

O desapego é em si mesmo e, em primeiro lugar, uma decisão interna. Enquanto não a assumirmos continuaremos a viver em apego a algo.

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Texto continua no próximo artigo, que será publicado dia 5 de Novembro de 2018.

Espero que todas as informações te possam estar a ajudar de alguma forma.
Obrigada por me leres,

Até breve <3

Categorias: Desapego

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