Este artigo é uma continuação. Se não tiveste a oportunidade de ler os anteriores podes fazê-lo agora:
Ler Parte I
Ler Parte II

***

6. A mais pura verdade é que nós não possuímos nada. Não somo detentores de nada, seja isso material ou não. A terra que nos dá suporte não é nossa, a casa à qual regressamos todos os dias não é nossa e as pessoas com quem nos relacionamos não são nossas (ainda que lhe tenhamos dado a vida ou nos tenham dado a vida a nós). Esta é provavelmente das constatações mais difíceis de aceitar e integrar neste mundo de consumo em que vivemos. Contudo, não sermos detentores de algo não significa que temos que viver sem nada. Apenas nos diz que não precisamos de estar dependentes da presença de coisas e/ou pessoas nas nossas vidas, para podermos ser felizes.

Esta questão remete-me sempre para a dualidade entre (o mal afamado) ego e (a atualmente muito aclamada) alma. Não sou defensora que algum dos lados seja sobrevalorizado, simplesmente porque já não há essa necessidade. Ou, pelo menos eu já não reconheço a existência dessa necessidade.

Durante anos e anos vivemos quase em exclusivo no mundo da ciência, da investigação e da produção em massa. Muita energia essencialmente masculina fluía. Materializar mais do que algo necessário, tornou-se urgente. E, tudo isto requereu um desenvolvimento superior do nosso poder mental e intelectual, em desvalorização das emoções, da espiritualidade e até do corpo físico que nos dá suporte. Por isso, quando há umas décadas se iniciou o crescimento exponencial de uma consciência coletiva baseada no despertar da espiritualidade individual, foi necessário fazer um enorme apelo às questões da alma. Foi preciso apelar ao reconhecimento da essência que cada um transporta em si. Foi fundamental resgatar o conceito de partilha e contributo para o mundo em que acreditamos. Tudo isto ainda faz sentido. Mas, já não é necessária a sua sobrevalorização em relação ao ego. O ego também faz parte de nós. Ego e alma não nos definem, mas pertencem-nos igualmente. Então, hoje em dia, tendo-se atingido o nível de consciência espiritual que se atingiu, já não precisamos manter aberta esta guerra aberta entre dois lados que fazem parte de um todo único que somos nós.

Com isto quero dizer que o equilíbrio que o desapego nos apela a fazer é precisamente o mesmo que hoje sinto que é necessário existir entre ego e alma. Ou seja, respeitar a nossa essência espiritual é tão necessário quanto encontrarmos forma de a colocarmos ao serviço, e isso, só a energia mental nos permite ter acesso. Afinal, é ela que nos permite explorar ideias, planificar estratégias e partir para a ação. Muitas das vezes este processo implica investirmos primeiro em nós. Este auto-investimento é inegavelmente algo egoíco. Contudo, nada de mal existe nisso, pois não é possível dar e contribuir em qualidade se não estivermos primeiro nós próprios inteiros.

Estou a falar-te disto porque os investimentos de que falo requerem tanto a energia do dinheiro, quanto a energia pessoal e a energia do tempo. Por isso, permitir a expressão da alma e viver em desapego, nada tem a ver com viver em pobreza, sem qualquer bem material e/ou dinheiro. Aliás, viver desta forma é reflexo do apego à crença de que a felicidade não está acessível através da expressão da tua essência, caso isso implique também investimentos económicos. Ou pior ainda, que da expressão da tua magia interior e colocação dos teus dons ao serviço, não podem advir bens materiais e/ou experiências emocionalmente impactantes adquiridas através do dinheiro daí advindo.

 

 

7. Conheço muitas pessoas que não conseguem concretizar os seus objetivos de vida, que sentem que as suas vidas não fluem e que por mais que se esforcem a sua dedicação parece nunca dar os frutos pretendidos. Existem variadíssimos motivos pelos quais isto acontece e não cabe no contexto deste texto explora-los. Contudo, reconheço que na maioria dos casos há um fator comum – o sentimento de não merecimento – ainda que inconscientemente.

É igualmente interessante observar que estas pessoas são também elas, na sua maioria, extremamente desenvolvidas espiritualmente. Ou seja, muitas experiências de vida relativamente ao dar, ao partilhar e ao que é colocar os dons pessoais ao serviço do outro alimentaram a ideia de que é o auto-cuidado é algo depreciativamente egoísta, e por isso, que deve ser evitado.

Então, quando no ponto anterior falei da necessidade de se estabelecer um equilíbrio entre alma e ego é também por isto. Pois, na verdade a capacidade de olharmos para nós, de nos dedicarmos tempo, de nos explorarmos, de valorizarmos o nosso potencial, o nosso ritmo, a nossa energia pessoal e de nos fazermos valer de tudo isto para atingirmos os nossos objetivos é algo que vem do ego. E isso, volto a repetir, não tem qualquer problema! É o ego que nos dá a possibilidade de olharmos para nós.

Então, se por um lado a alma nos abre ao encontro com os outros, por outro, o ego torna possível esse encontro connosco.

Quando começarmos a ver o tempo e a energia que dedicamos a nós como algo benéfico ao todo e não como um ato egoíco, começamos também a perceber que fazê-lo, para além de fundamental, é também algo do qual somos merecedores. Enquanto esta mudança de paradigma não acontecer dentro de nós, não vamos conseguir sentir qualquer tipo de merecimento.

Assim, viver em desapego em nada está relacionado com o não investimento pessoal. Cuidarmos de nós (física, psicológica, emocional e espiritualmente) não tem que ser visto com um apego. Só o é se nos tornemos dependentes disso e perdermos o propósito e intenção pelo qual o estamos a fazer – ou seja, contribuir para o bem e melhoria do todo.

 

 

8. Nem todos nós adulto temos uma história de vida bonita para contar, cheia de alegria e amor. E, mesmo os que têm, também passaram por momentos menos bons, marcados pela tristeza, frustração e até desilusão. Seja qual for a história que temos para contar ela é nossa, contribuiu (positiva e negativamente) para as pessoas que somos hoje e por isso, deve ser honrada!

Bem sei que atualmente muito se apela ao vivermos no presente, no aqui e agora, neste instante em que me lês e não no que já aconteceu na tua vida ou ainda está para acontecer. Contudo, para que isso seja possível, é primeiro necessário que te permitas. Digo-o desta forma, porque pela experiência que tenho, muitas das dificuldades que encontramos em estarmos presentes no presente, acontecem porque o peso do passado é enorme e as expectativas em relação futuro igualmente pesadas.

Acredito que para desenvolvermos a capacidade de vivermos mais plenamente cada momento, precisamos para além de treinar a nossa capacidade cognitiva de atenção, libertar-nos dos fantasmas do passado e da pressão do futuro acontecer tal qual como gostávamos que fosse.

Para isso, é necessário revisitar levemente o passado sem nos envolvermos demasiado nele, olharmos para ele de uma nova perspetiva mais possibilitadora, aceita-lo tal como foi, permitirmo-nos finalmente estar em paz com ele e seguirmos livremente em frente, sem que seja necessário voltarmos a desperdiçar energia a nutrir maus sentimentos por ele.

Isto é viver em desapego! Isto é viver livre do que já passou e não podemos alterar. Pelo contrário, enquanto teimarmos em nem sequer querer reconhecer que temos uma história de vida (seja ela feliz ou não), estamos a viver num profundo e limitador apego à dor, à raiva e ao rancor. Alimentamos o que já não nos serve e impedimo-nos de viver em plenitude.

O mesmo acontece em relação ao futuro. Não vamos deixar de sonhar ou definir objetivos, mas deixemos espaço para que o universo (Deus, Buda, Alá ou qualquer outra entidade em que acredites) se manifeste. Viver em desapego também é permitir que a vida flua dentro do livre arbítrio que nos permite escolher o que queremos para nós, a cada momento.

***

Texto continua no próximo artigo (e último desta série), que será publicado dia 7 de Novembro de 2018.

Obrigada por me leres,

Até breve <3

Categorias: Desapego

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *