Este artigo é uma continuação. Se não tiveste a oportunidade de ler os anteriores podes fazê-lo agora:

Parte I

Parte II

Parte III

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9. “Meditar todos os dias 30 minutos e viver em stress as restantes 23H e 30 minutos.” Esta é uma frase que pode parecer estranha, mas a verdade é que é algo bastante frequente nos dias que correm. Com o despertar de consciência coletiva que estamos a viver, muitos foram aqueles que se deram conta que as suas vidas estavam completamente desalinhadas de si mesmos. E, esse era o principal motivo pelo qual eram elas tão pouco satisfatórias e tinham tão pouco sentido e/ou significado.

 

Foi aí, que a meditação surgiu como um meio ótimo através do qual não só conseguimos um conhecimento inigualável de nós mesmos, como também nos permite desenvolver a capacidade de viver no agora, sem os pesos do passado, nem a ansiedade do futuro. Mas, viver em apego à ideia que a meditação por si só é a nossa tábua de salvação, é um apego tão prejudicial quanto todos os outros que já falamos anteriormente.

 

Se procuras a meditação porque realmente sentes benefícios na tua relação contigo e com os outros, perfeito! Mas, se isso não acontece não precisas de sofrer com essa situação. Aliás, foi precisamente o sofrimento de já não estares  bem e em paz contigo, na vida que tens, que te levou a procurar alternativas. Por isso, não faz sentido mais sofrimento para saíres do sofrimento.

 

Se praticas meditação e me estás a ler, isto pode estar a soar mal. Mas, tenho encontrado tantas pessoas aflitas por não conseguirem sentir-se bem consigo devido ao facto de não conseguirem meditar sozinhas, ou por não conseguirem implementar uma prática de meditação no seu dia-a-dia, que acabam por se esquecer do motivo (propósito) pelo qual elas escolheram aquele caminho nas suas vidas.

 

Isto acontece por um apego a uma ideia ou expectativa. Pois houve uma amiga, ou uma amiga da amiga da amiga, com quem a meditação funcionou lindamente e conseguiu transformar a sua vida. Como isto também é algo que queremos muito para nós, no meio de tudo, esquecemo-nos que não somos todos iguais, que passamos por processos de adaptação diferentes, temos timings diferentes e não adianta passar 30 minutos a tentar meditar se são 30 minutos de pura autopromoção de frustração.

 

Há ainda outro aspeto importante de se analisar. Muitas das vezes estes 30 minutos de frustração resultam, mais uma vez, do apego a crenças altamente enraizadas sobre o que é meditar. Não imaginas a quantidade de pessoas que tenho conhecido que me dizem:

“Liliana eu gostava imenso de poder meditar, mas não consigo. Não tenho elasticidade nenhuma e nunca consigo ver nada do que é sugerido!”

 

Desmistificando esta ideia e ajudando-te aqui a libertar algumas ideias erradamente absolvidas sobre meditar, que te estão a trazer mais transtorno à tua vida que tranquilidade, aqui vai:

 

– Meditar não é ter a cabeça vazia. Pensar é um dom natural com o qual, felizmente, todos nascemos. Mal de nós se não pensássemos. Mas, claro, como tudo o que acontece em excesso é prejudicial, pensar não é exceção! Quando passamos mais tempo a pensar no passado e no futuro do que a viver o presente isso claramente não é bom. Pois, estamos a perder uma parte importantíssima da nossa própria vida. Então, da próxima vez que meditares não te apegues demasiado à ideia de que meditar é ter a cabeça vazia. Reconhece apenas que às tantas os teus pensamentos se unem uns aos outros e começam a tentar criar uma história. Quando isso acontecer assume que esse é um processo normal da tua mente. Agradece-lhe por ela ser saudável e cumprir na perfeição o seu papel. Por fim, diz-lhe que naquele momento não precisas dela e ela pode descansar um pouco. Focando-te em qualquer estímulo do presente relevante para ti – a respiração, o canto de um passarinho, a chuva a cair lá fora, etc. – explora-o e sente-o intensamente. Nisto já estarás a fazer um processo de meditação enorme.

 

– Meditar não tem nada a ver com posições acrobáticas. Existem realmente práticas que combinam posturas físicas com meditação, num processo de autoconsciência corporal e autoconhecimento. Mas, meditar por si só não implica que tenhas que ter uma performance física invejável. Na verdade, meditar implica simplesmente que estejas na tua própria companhia sentada numa cadeira, no chão ou até deitada.

 

– Meditar não é relaxar e muito menos dormir. O relaxamento é uma consequência da meditação, pois facilmente através da respiração conseguimos atingir um relaxamento muscular elevado. Para além disso, através do desenvolvimento da capacidade de dirigir a atenção conseguimos promover um alívio mental enorme à nossa mente, o que também contribui para a diminuição da tensão muscular. Mas, o objetivo da meditação não é em si mesmo esse. Meditar implica pelo contrário que acedas a ligeiro estado alterado de consciência, que te permite aceder a informação sobe ti mesma, alojada numa zona da tua psiqué que não tens normalmente acesso, sem que percas a consciência. Assim, caso adormeças não há qualquer problema, mas não estarás a meditar, estarás apenas a dormir.

 

– Meditar não é ver coisas. Há quem tenha uma capacidade de imaginação visual muito desenvolvida e num processo de meditação guiada facilmente consegue criar planos visuais, onde todo o processo meditativo se desenvolve. Contudo, esta competência não é um requisito. Numa meditação guiada basta seguires o fluxo como se alguém estivesse a ler uma história para ti, na qual tu és um dos protagonistas. Mas se ainda assim não resultar contigo, existem outros tipos de meditação, como por exemplo o Mindfulness, que apesar de em contexto de grupo também ser uma meditação guiada, é muito mais um treino de atenção direcionado para estímulos concretos (internos ou externos). Contudo, igualmente benéfico para o teu bem estar e qualidade de vida.

 

– Meditar não é só preenchermos a agenda com mais uma coisa durante 30 minutos. Meditar é passares tempo de qualidade na tua própria companhia e isso deve acontecer o máximo de tempo possível e não apenas 30 minutos, só porque está na agenda. Meditar é nesta perspetiva um modo de vida, que implica uma postura consiste através da qual, nos mais diversos contextos, tu aplicas técnicas de atenção plena e direcionamento para o momento presente. Então, desapegares-te da ideia de rigidez relativamente à meditação e encontrares formas viáveis para ti de desenvolver a atenção ao presente, ao longo de todo o teu dia, vai permitir-te viver em maior desapego. E, isso ajudar-te-á também a praticares o desapego em relação a outras questões na tua vida.

 

Muito mais havia a dizer, mas se conseguires através deste texto desapegar-te de pelo menos alguma ideia limitadora relativamente à meditação, já será maravilhoso.

 

 

10. O último ponto está relacionado com a consciência física que temos, ou não, sobre a manifestação das nossas emoções e processos internos no nosso corpo. Deixei este tópico propositadamente para o fim, porque eu própria ainda tenho muita dificuldade em assumi-lo, treina-lo e explora-lo diariamente.

 

À semelhança da meditação, praticar Yoga e/ou Pilates está na moda! Isto seria algo ótimo se todos soubéssemos aproveitar devidamente estas atividades, que na minha perspetiva, são muito mais do que simples modalidades físicas, para nos conhecermos melhor e mais profundamente. Pois, as nossas memórias não existem apenas no nosso armazém chamado cérebro, elas existem também um pouco por todo o corpo. Todas as nossas experiências deixam em nós marcas, ainda que não as consigamos ver a olho nú. Isso é percetível quando realizamos alguns exercícios de consciência corporal. Com o treino começamos a perceber que o sentir físico acontece antes da tomada de consciência mental. Ou seja, o nosso corpo consegue mais rapidamente que a nossa mente dizer-nos como reagimos aos estímulos internos e externos.

 

Isto pode ser confuso numa fase inicial de atenção plena ao corpo, mas é incrivelmente poderoso desenvolver este conhecimento de nós mesmas. A forma que eu considero mais simples para começarmos a explorar esta ideia, do corpo como um mensageiro privilegiado é pensamos na somatização. Estados emocionais e processos psicológicos são muitas vezes manifestados por sintomas físicos. Nas crianças é frequente reconhecermos que as dores de barriga matinais são simplesmente a manifestação externa do medo, ansiedade e/ou tristeza que sentem em ir para a escola. Acontece que a somatização não é apenas coisa que crianças. Nós adultos temos muitas das vezes dores físicas que ignoramos. Achamos quase sempre que uma dor de cabeça surge pelas horas de exposição ao computador, que um dor nas costas é o resultado de uma noite mal dormida, que uma dor no peito é só reflexo de um dia mais stressante, etc. Não quero dizer com isto que não seja assim, mas muitas das vezes não tem nada a ver e nós lidamos com essas dores sempre da mesma forma. Ou seja, como se as suas causas fossem sempre as mesmas, quando não são. Nós mulheres experimentamos situações destas todos os meses com a menstruação. Assumimos como normal ter dores nesta fase do nosso ciclo e como tal, medicamo-nos para não as sentir. Não colocamos em causa que essas dores possam não simplesmente não acontecer e, muito menos que, ao acontecerem possam ser uma mensagem de alerta do nosso corpo para nós.

 

Tudo isto é reflexo de um apego enorme que temos a hábitos e formas de agir, que mesmo não servindo mais o propósito maior da nossa alma, continuamos a executar sem pestanejar.

 

Viver em desapego é termos a audácia de nos libertarmos destes dogmas, regras e modus operandi só porque sempre o fizemos assim.

 

Viver em desapego é amarmo-nos inteiramente em todas as dimensões do nosso ser – mental, emocional, físico e espiritual – escutando, aceitando e integrando as suas mensagens.

 

Viver em desapego é ser livre e libertar, porque o verdadeiro amor não nos prende, nem nos faz querer prender nada nem ninguém.

 

Até breve <3

Categorias: Desapego

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